17.

ESSAS MÃOS EU CONHEÇO LURDES LURDES É VOCÊ 
O soldado esfarrapado havia reconhecido Lurdes. E ela, depois do sobressalto inicial, por sua vez, viu que aquele soldado era ninguém mais ninguém menos do que César - sua antiga paixão infantil -  agora virado em homem e salvo por ela. Nada disso escapou aos olhos fixos do Doutor Hernandez, que tão pouco sabia da vida pregressa da enfermeira, e observava a cena toda com espanto e ciúmes. César, febril e surdo, não parava de repetir o nome de Lurdes, que saiu correndo antes de colar a última bandagem, com medo de ter sua antiga identidade reconhecida. Ela correu e se deitou no campo, olhando para o céu cinza, ouvindo os barulhos da guerra, um redemoinho no peito, a vida parecia uma piada sem sentido.


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16.

Mãos celestes teve a enfermeira Lurdes remendando aquele soldado sem identificação em farrapos. O médico do acampamento, doutor Carlos von Hernandez, se enroscou no laço do amor ao se deparar com aquela mulher estancando um rio de sangue, reorganizando aquele bolo de tripas, com tamanha maestria. A concentração dos dois foi tanta que os soldados deixaram os três sozinhos, em silêncio: o homem-farrapo inconsciente coberto de bandagens, Lurdes costurando e o médico suspirando. 


15.
É sempre comum que, em tempos de guerra, os combatentes  que resistem tomem grandes porres e cantem e toquem músicas,  principalmente na ocasião de uma vitória. Lurdes se entristecia, sentada  em um canto, ouvindo a música alegre e desesperada dos bêbados, quando  um moribundo foi trazido. Era um rapaz com a pele ainda macia, parecia  recém chegado ao fronte. Metade do seu rosto estava faltando, sangrando  muito. A metade restante era estranhamente familiar. Sem parar de  dançar, o médico do acampamento deu o caso por perdido. Mesmo assim,  Lurdes decidiu salvar aquele pobre diabo, enquanto a fanfarra mórbida  dos camaradas continuava iluminando e aquecendo a fábrica reconquistada.

15.

É sempre comum que, em tempos de guerra, os combatentes que resistem tomem grandes porres e cantem e toquem músicas, principalmente na ocasião de uma vitória. Lurdes se entristecia, sentada em um canto, ouvindo a música alegre e desesperada dos bêbados, quando um moribundo foi trazido. Era um rapaz com a pele ainda macia, parecia recém chegado ao fronte. Metade do seu rosto estava faltando, sangrando muito. A metade restante era estranhamente familiar. Sem parar de dançar, o médico do acampamento deu o caso por perdido. Mesmo assim, Lurdes decidiu salvar aquele pobre diabo, enquanto a fanfarra mórbida dos camaradas continuava iluminando e aquecendo a fábrica reconquistada.

14.

As mãos ágeis da enfermeira Lurdes costuravam os ferimentos mais escabrosos e ela vivia banhada em sangue. Nada parecia abalar aquela mulher misteriosa, nem a fome, nem a sujeira, nem as notícias que chegavam ao acampamento. Ela, além de incansável e corajosa, era muda. Tinha que ser assim. Mesmo naquele inferno esquecido por Deus, Lurdes sabia que não podia dar a menor pista sobre a sua verdadeira identidade. Afinal, chamava atenção no meio de tantos homens, e não foram um ou dois os que morreram na selva, entre explosões e gritos, com o rosto da enfermeira nos olhos.


13.

TODOS CHORAM: Uma batida de carro ceifou a vida da dupla de sucesso Lurdes & o Cego. O cego, que estava no banco do motorista, morreu na hora do impacto. Ao seu lado, Lurdes, que não usava cinto de segurança, teve o corpo arremessado para fora do carro e dentro do oceano, onde foi, especula-se, devorada por animais marinhos. Até hoje, cinco anos depois, dizem por aí que o ganancioso agente da dupla forjou o acidente para vender mais discos, que foi suicídio por que eles usavam drogas, e, ainda, que Lurdes sobreviveu ao acidente e passou a viver incógnita, com outro nome. E tudo isso é verdade.


12.

Apesar de não suportar o cego fora dos palcos, Lurdes  tinha de agir como se os dois fossem um casal. Quem defendia isso era Mané Baitola, o agente da dupla, homem manco, porém alegre, que entendia de negócios e trocou todos os dentes por dentes de ouro com o dinheiro da primeira apresentação séria dos seus protegidos. Além disso, Lurdes passou a sofrer com o assédio dos fãs, que não paravam de gritar e tirar fotos e arrancar pequenos souvenires dela, sempre que ela aparecia sem disfarce em algum lugar movimentado. Mas, apesar de todas essas pressões que assolavam a rotina de Lurdes, ela era feliz. Porque, no palco, cantando de improviso e tocando sempre um instrumento diferente, Lurdes & o Cego faziam um som divino.



11.
Após um massacrante esforço lógico, Lurdes chegou a conclusão de que faltavam objetivos na sua vida. Trôpega, ela vagou sem reparar aonde ia, até ter sua atenção fisgada por uma melodia alegre. Era o cego que ela havia abandonado. Apesar de doente, ele tocava gaita e pedia moedas com alegria. Mal Lurdes se recompôs do susto, começou a dançar, badalando o compasso com um pequeno sino de prata e as ruas ficaram cheias de gente que parou para ver e ouvir os dois. Nesse dia, Lurdes e o cego jantaram escargots e começaram uma turnê.

11.

Após um massacrante esforço lógico, Lurdes chegou a conclusão de que faltavam objetivos na sua vida. Trôpega, ela vagou sem reparar aonde ia, até ter sua atenção fisgada por uma melodia alegre. Era o cego que ela havia abandonado. Apesar de doente, ele tocava gaita e pedia moedas com alegria. Mal Lurdes se recompôs do susto, começou a dançar, badalando o compasso com um pequeno sino de prata e as ruas ficaram cheias de gente que parou para ver e ouvir os dois. Nesse dia, Lurdes e o cego jantaram escargots e começaram uma turnê.


         

10.

Lurdes mostrou seu talento com o barbante para César, apesar de todo o sofrimento que isso já havia lhe trazido. Em retorno, ele levantou a camiseta e mostrou o umbigo para ela. A diversão dos dois durou até César gritar que queria dançar no topo da cabeça de Lurdes. Nesse momento, ela se deu conta de que eles queriam coisas muito diferentes da vida e, com um peso no coração, deixou César brincando sozinho com sua sacola plástica. Anoitecia quando Lurdes abandonou o parque, arrastando um pequeno sino de prata e tentando formular o que ela própria queria da vida.


9.
César foi o único que não correu. Lurdes descansou ao lado dele no parque silencioso. Pela primeira vez na vida, Lurdes teve orgulho da própria cabeça, onde César gostou tanto de passar a mão.

9.

César foi o único que não correu. Lurdes descansou ao lado dele no parque silencioso. Pela primeira vez na vida, Lurdes teve orgulho da própria cabeça, onde César gostou tanto de passar a mão.


8.

Desde os 14 anos, Lurdes era capaz de comer ameixas no pé sem usar as mãos. Até esse momento, a grandeza nunca havia sido problema para ela. Incomodada, Lurdes levantou do banco, derrubou a trave do balanço e o escorregador. Só as crianças mais aptas conseguiram fugir do parque.

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Desde os 14 anos, Lurdes era capaz de comer ameixas no pé sem usar as mãos. Até esse momento, a grandeza nunca havia sido problema para ela. Incomodada, Lurdes levantou do banco, derrubou a trave do balanço e o escorregador. Só as crianças mais aptas conseguiram fugir do parque.



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